sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

ANA CAROLINA: UMA VIRGINIANA APAIXONADA POR MÚSICA, POR COMPUTADOR, E PELO AMOR...


Ana Carolina é entrevistada por Leda Nagle no livro De minas para o mundo - . Confira,  com exclusividade a entrevista na íntegra.

A avó cantava no rádio, o avô em igreja, os tios – avós eram músicos. Da mãe dona Aparecida, doce figura, ganhou o primeiro violão, aos 12 anos. Mas Ana Carolina diz que, mesmo assim, não pensava em ser cantora, se importava mesmo era com o violão. Se em Juiz de Fora, onde nasceu, tivesse praia, seria lá que ela passaria os dias, tocando. Mas como não tem, tocava mesmo era sentada na muretinha de casa. Tocava o dia inteiro. Chegou a quebrar esse primeiro violão num acesso de raiva porque não conseguia fazer pestana. Se arrependeu, mandou consertar o violão e, no dia em que ele veio do conserto, conseguiu fazer a tal pestana. Ana diz que é fruto do pão de queijo, da beira do rio, da roça, da traição. Desconfiada, no começo, achava  que não iriam gostar da música que compunha. Levou um susto quando  descobriu que tinha vendido cinco mil discos. Hoje com dez anos de sucesso, ela já passa da marca dos cinco milhões de discos vendidos, já fez show com mais de um milhão de espectadores e, além do violão, toca guitarra e pandeiro. Ana não gosta de levantar bandeiras, já namorou meninas e meninos, não larga o computador enquanto estiver acordada, vê filmes até a hora de entrar no palco e já cantou em muitos bares da vida. Adora descobrir músicas e compositores novos e gosta tanto, mas tanto, de tocar, que construiu uma casa que, na sala principal, além de mesas e dos sofás, tem vários instrumentos prontos, arrumados, como que esperando o amigo ou a amiga que quiser chegar e tocar.

Ana, é um livro de mineiros, e eu vou começar perguntando o que é que tem de mineiro em você. É o jeito desconfiado?
Acho que é o jeito desconfiado e uma ligeira vontade de fazer as coisas pé ante pé. Eu acho que todo mineiro é ambicioso, bem ambicioso. Mas eu acho que tem uma maneira que é do mineiro, que é de fazer as coisas pelo trabalho. Ir comendo pelas beiradas, fazer quietinho, fazer trabalhando mesmo. Devagar, pé ante pé... Visando um objetivo. Eu acho que isso é uma coisa dos mineiros que eu tenho também. E acho que a coisa de não ter o mar fez esse grupo de pessoas. Fez a mineiridade. Porque não ter o mar faz com que a gente invente outras formas de ser divertir, faz com que a gente invente outras formas de arte. Eu acho careta falar em “linguagem da montanha”, porque em Minas Gerais não tem montanha; tem rio, tem cachoeira... Mas eu acho que mineiro, principalmente na parte artística, inventa uma maneira de se divertir sem precisar de ondas, sem precisar de areia. Eu só passei a ter essa visão depois de morar por um tempo no Rio de Janeiro e ver o dia a dia de inúmeros cariocas que gostam muito da praia. Eu sinto que em Juiz de Fora e em outras cidades mineiras tem aquela coisa da conversa à tarde com café e bolo de fubá, de todo mundo se conhecer na mesma rua, no mesmo bairro. E eu acho que o mineiro é debochado. Quando você acha que está debochando de um mineiro, ele já debochou muito mais de você. Acho o mineiro extremamente debochado e gosto muito disso. E tem mais uma coisinha que eu acho importante falar: eu sou muito respeitada, muito mais respeitada por ser mineira. Ás vezes eu chego num lugar, até fora do Brasil, e perguntam: “Carioca? Paulista?. Digo: “Não, mineira”. “Ah, Minas Gerais!”. É uma coisa meio diferente. Eu acho que a mineiridade criou uma tradição com algumas pessoas tão boas na política, na música... Eu tenho a honra de ter vindo para a música depois de gente como Milton Nascimento, Fernando Brant... A gente tem na política pessoas como Gabeira, que é um cara sensacional. Então eu acho que essas pessoas escreveram um pouco do respeito que a gente, que vem depois, pega um pouquinho, assim, na rebarba.

E as montanhas, te incomodavam de alguma forma? O Milton Nascimento diz que descobriu a própria voz ouvindo o eco que vinha das montanhas.
Para quem nasceu nas montanhas, a sensação de que existe um vale é certamente mais clara do que a idéia de vale que pessoas de outras cidades têm. Eu acho que tem a estética da montanha, a estética do vale, que é diferente da estética do frio em Porto Alegre, como diria o Vítor Ramil, da estética do calor do Rio de Janeiro. Eu acho que essa estética planalto/planície vale a pena ser lembrada.

Você acha que seria diferente se não fosse mineira?
Com toda certeza! Eu sou fruto do pão de queijo, sou fruto da beira de rio, da roça... As pessoas não sabem, mas na minha infância eu ia muito pra um lugar que a gente chamava de “roça”, era a casa da minha tia, no bairro da Barreira do Triunfo, em Juiz de Fora. Tinha muito essa coisa de roça, roça mesmo. Tinha vaca, a gente tomava leite da teta da vaca. Comia o queijo que minha tia fazia, comia ovo da galinha dela. No final de semana comia o frango que ela criava. Era maravilhoso! Eu tive uma infância dividida entre aquela garota que subia nas árvores e chupava tangerina e jabuticaba no pé e a que morava na cidade. E andava no barro, adorava andar no barro! Eu adorava essa vida de roça, e, também, extremamente urbana. Voltava para a cidade, e, imagina, carro, escola, rua, trânsito, tudo acontecia ao mesmo tempo. Eu acho que foi uma infância muito boa, porque eu aprendi a descobrir prazeres na vida rural e prazeres na vida urbana. Isso me fez ter uma infância única, muito rica.

Como é que você descobriu que queria ser cantora? Como é que você começou a cantar?
Eu nunca pensei em ser cantora. Eu achava que era só tocar violão e cantar. Eu me importava mais com o violão. E disse e continuo dizendo que o que me importa mais é o violão. Não estou desdenhando o canto. Adoro cantar. Adoro! Tudo certo. Mas eu tenho um prazer muito especial por tocar violão. Eu comecei a tocar violão aos 12 anos, quando minha mãe me deu um. Um violão ruim pra danar! E eu ficava o dia inteiro batucando aquele violão, querendo tocar... Eu achei até a quebrar o violão de raiva, porque eu não conseguia fazer uma – quem toca o instrumento entende o que é – pestana. Quebrei o danado do violão. Me arrependi no meio do caminho, mas aí já era tarde. Então eu mandei consertar o violão; quando o violão chegou em casa, eu fiz a pestana [risos]. Eu pensei: “Nossa Senhora, eu devia ter te quebrado mesmo. Olha só que maravilha!”.

Você não tinha aula de violão?
Eu tive um mês de aula de violão, em Juiz de Fora, depois parei. Comecei a pegar revistas de música, livros de música e ficava tentando tirar a melodia. Mais tarde eu resolvi me aventurar numa aula de música clássica, também não durou um mês. E de mês em mês [risos] eu descobri uma maneira de tocar e de fazer da minha própria maneira. Mas só pensava em tocar violão. Em Juiz de Fora, tinha uma coisa de tocar violão na rua, e na rua em que morava, na Rua Antônio Dias, a gente sentava na muretinha e ficava lá, com todos os amigos, tocando violão. É de novo aquele negócio: Eu acho que se tivesse uma praia, eu estaria tocando violão na praia [risos].

Quantos anos você tinha nessa época?
Acho que tinha uns 16 anos de idade. Eu ainda estava fazendo o terceiro ano, pra poder fazer a faculdade. E aí eu fui criando laços, criando histórias de tocar na noite, arrumei empresários. Fui aumentando o público: de 10 passava pra 20, passava pra 50, de 50 passava pra 100... Então eu comecei a fazer esse show, sozinha, tocando guitarra, pandeiro e violão. E vim fazer esse mesmo show aqui no Rio de Janeiro, no Hipódromo Up e Mistura Fina. Eu fazia esse show em Araras, em Bicas, em Ubá, em Cataguases... Aí eu  fui fazer no Mistura Fina, no Rio, e dei a sorte de a Luciana de Moraes [filha do poeta Vinícius de Moraes] estar lá e me pedir um CD pra mostrar pro Jorge Davidson, executivo da BMG na época. E eu tinha um “cedezinho” de voz e violão, gravado em Juiz de Fora, no primeiro grande estúdio que tinha lá, chamado Caraíba. Aí eu fui contratada pela BMG pra fazer o primeiro disco e tive que deixar a faculdade. E aí eu voltei pra Juiz de Fora e gravei o disco vindo pra cá toda semana. Na segunda – feira pegava o carro, chegava aqui, gravava no estúdio até sexta – feira e voltava pra Juiz de Fora. Só me mudei pra cá, mesmo, quando o disco foi lançado, e a gente viu que ia dar em alguma coisa. Porque até quando eu estava terminando o disco – [risos] mineiro é desconfiado – eu achava que ninguém ia gostar ou, então, eu ia ter muito problema pra ser aceita, sei lá. Eu tive uma sorte muito grande, muita sorte no começo. Tive uma música na novela. “Garganta”, na novela das sete, Andando nas Nuvens, música – tema da personagem da Débora Bloch, a Júlia. Eu tive muita sorte com isso. Eu me recordo de uma passagem assim que lancei o disco. Fui conversar na gravadora, pensando em me mudar pro Rio, e eles falaram pra mim: “No começo é devagar mesmo. Seu disco vendeu cinco mil cópias”. “Como assim vendeu cinco mil cópias?”. Eu fiquei apavorada com aquilo! “Cinco mil pessoas compraram o disco, têm o disco?”. “É.” E para o executivo da gravadora não era nada! Mas pra mim era uma comemoração, fiquei na maior felicidade! Falei: “Não tô acreditando que já tem cinco mil pessoas com o disco”.  Ele deve ter pensado: “Essa aí é doida, não entendeu nada ainda.” Seis meses depois eu ganhei o disco de ouro, cem mil cópias, na época em que a pirataria não era tão forte. Eu fiquei doida na época! As pessoas já me reconheciam na rua depois que eu fiz o primeiro programa de televisão. E aí deu no que deu. Depois eu gravei o segundo, o terceiro disco e fui em frente.

Você ficou apavorada com essa coisa de gravar o disco ou não?
Não, eu pensava assim: “Tô fazendo o show sozinha, pra tudo quanto é lado, eu com a minha empresária. Montando caixa de som, chegando horas mais cedo no bar pra organizar tudo, até ajeitar as cadeiras pra ficar melhor pras pessoas assistirem o show”. A gente fazia de tudo lá, cara! E eu levava a minha vida assim, ganhava o meu dinheiro, vivia bem. Quer dizer: minha vidinha tava boa. Agora vamos lançar o disco. Então, vamos lançar o disco. Um cara como o Jorge Davidson é um cara que sabe o que tá fazendo. Se ele estava interessado em me contratar é porque ele via ali um valor. E aí eu, bem mineira, comecei a fazer tudo, pé ante pé. Ele me apresentou o Nilo Romero [baixista e produtor musical], e eu conversei muito com ele, mostrei a demo... Muitas coisas eu já tocava na noite, como “Alguém me Disse”, “Garganta”, “Beatriz”, “Tudo Bem”... Esse era o repertório da noite. Esse show que eu fazia de voz e violão está ali no primeiro disco. Tanto que tem muita regravação. Quase que não tem música minha.

Você já compunha?
Compunha. Compunha discretamente. No primeiro disco tem “Trancado” e “A Canção Tocou na  Hora Errada”, que foi muito bem na JB FM na época. Chegou a ficar em primeiro lugar. Mas faltava um pouco de mais de confiança pra fazer um disco totalmente com as minhas músicas. Comecei a compor com o Totonho Villeroy (autor de Garganta) e com outras pessoas. Eu fui me tornando uma compositora a ponto de as pessoas me pedirem canções. A minha primeira vitória foi quando a Maria Bethânia me pediu uma canção. Foi a primeira pessoa a me pedir uma canção. Me deu um aval, uma coisa pela qual tenho muito o que agradecer.

Mas você não mostrava músicas para as cantoras?
Não, não, não. Nem eu acreditava direito nas minhas músicas [risos]! Quanto mais “chegar”, porque tem que ter... Chegar... imagina! Chegar na Maria Bethânia e dizer: “Olha, eu quero te mostrar uma música”. Imagina! Eu dei porque ela quis. Eu só mostrava pros músicos, meus amigos, e quando a Bethânia gravou “Pra Rua Me Levar” foi um presente pra mim. Eu escutava 24 horas por dia! Depois eu dei outra sorte, que foi com “Sinais de Fogo”, pra Preta Gil, que estava gravando o primeiro disco. Foi a música de trabalho, virou um sucesso na voz dela. E eu fiquei muito contente. Achava muito legal ligar o rádio e ouvir uma pessoa cantando um negócio que eu fiz ali no quarto, com Totonho Villeroy, e a música ganhar vida na voz de outra pessoa. É um negócio bem legal. E continuei quietinha no meu canto e recebendo muitos pedidos. E assim foi Luiza Possi, com “Escuta”, foi Mart’nália com “Cabide”, foi Maria Bethânia, de novo, com “Eu Que Não Sei Quase Nada do Mar”, parceria com Jorge Vercillo.

E a sua família aceitava bem uma cantora na noite? Sua mãe 
aceitava bem? Seu pai?
Meu pai faleceu quando eu tinha dois meses. Eu nem cheguei a conhecer [risos]. O meu pai foi amante da minha mãe por 12 anos. Quer dizer, minha mãe foi amante do meu pai por 12 anos. Ela tentou se livrar dele... Acho que “se livrar” é meio forte. Ela tentou deixar a história de lado, porque pra ela não fazia bem viver ás escondidas. Ele tinha outra família, mulher, filhos, tenho dois irmãos. Mineiros também [risos]. Maravilhosos! Selma e Fernando. A Selma mora em Juiz de Fora ainda. O Fernando se mudou pra São Paulo, tem uma família lá.

E quando ela tentou reorganizar a vida dela, digamos assim.
Exatamente. Ela veio pro Rio de Janeiro, montou um salão aqui. Veio tentar fazer a mesma vida que ela tinha lá, de cabeleleira. Deixou o salão com as irmãs e veio pro Rio de Janeiro tentar a vida. Aí ela engravidou. Porque ele vinha, mandava flores [risos].

Então, você é filha de um grande amor.
Sim, um amor impossível.

E fez falta pra você não conhecer o seu pai?
Fez. Fazia falta a presença masculina né? O arquétipo. Acho que tive alguns traumas, algumas passagens estranhas. Aprendi a mentir. Chegava no colégio, e as crianças perguntavam: “Cadê seu pai?”. E eu dizia assim: “Meu pai viaja muito. Meu pai estava viajando”. No outro dia: “Cadê seu pai?”. “Ah, meu pai morreu”. Daí a pouco eu inventava outra coisa. Inventava milhões de histórias com relação a isso. E sempre caía. Chegava uma hora em que as pessoas viam que eu estava mentindo. E foi muito traumático, porque chega o Dia dos Pais e a criança que não tem pai não tem o que fazer. A não ser chorar num canto do colégio. Minha mãe dizia: “Olha, faz uma lembrancinha do colégio e dá pro seu padrinho”. Tudo bem não é? É uma historinha, uma coisinha pra fazer, mas criança não é boba. A criança sabe o que é a realidade. A realidade pesa, né? [risos]! Foi bem difícil, foi meio traumático. Mas já estou completando dez anos de análise [risos]! Melhorei. Parei de mentir [risos]. Ou melhor, comecei a fazer virarem verdade as mentiras nas minhas canções.

E sua mãe lidou bem com o fato de você ser cantora? O padrinho, as tias?  Todo mundo gostava desde o começo ou gosta agora? Agora é fácil né?
Agora é mais fácil, logicamente. O que acontece é que, agora, depois que fiquei conhecida, descobri primos que nem sabia que tinha. Porque eu vou fazer show num determinado lugar e: “Pô, essa é minha prima. Vou lá ver”. Eu passei a ter alguns familiares mais perto. Mas na época eu tive muita coisa da minha mãe, sim. Eu lembro que, quando a gente vinha pro Rio de Janeiro, por exemplo, eu não sabia cozinhar, nunca tive essa coisa com a cozinha. Muito menos a minha empresária, que morava comigo. Então a minha mãe fazia umas comidinhas pra eu trazer pro Rio. Ela fazia carne assada porque é uma coisa que a gente botava no congelador e durava um tempo. Depois ela ia nos visitar, ela ia nos shows. Ela estava atenta. Desde quando eu tocava na noite. De vez em quando ela ia num bar ou outro assistir. Era uma coisa muito bacana, muito natural! E a minha mãe sempre foi muito crítica, com tudo. Muito difícil agradá – la. Uma coisa!

E você é bem corajosa, né, Ana? Aquela entrevista na Veja, a capa da Veja...
Mas isso foi um susto! Na verdade, eu já havia falado... mas ninguém prestou atenção. Em alguns momentos, logo no início da carreira, eu estava muito preocupada em mostrar as músicas, e as pessoas muito preocupadas em saber as coisas da música. Eu nunca fui muito questionada, no comecinho, não ser por quê. Na época do disco Ana, Rita, Joana, Iracema e Carolina [2001], começaram a surgir algumas especulações. Eu nunca escondi. Cheguei a falar “a minha namorada” para alguns repórteres, mas não publicaram, não deram atenção. Deram mais atenção á música. Então, essa entrevista que eu fiz em São Paulo, me lembro como se fosse hoje, no Unique, com o Sérgio Martins. Ele estava gravando muito atento e não escreveu uma linha fora. Tudo o que estava escrito naquela entrevista eu disse. Eu não podia no dia seguinte falar: “Gente, não é bem assim...”. E a entrevista não seria capa, seria “Páginas amarelas”. Vários cantores estavam fazendo na época. Eu pensei que só fosse fazer as páginas amarelas, contar um pouco da história... Então estava contando a história, contando a história... parecido com o que a gente está fazendo aqui, só que um pouco mais raso. Como eu vim, como foi, como começou... Numa hora lá me perguntaram: “Quem tá ali?”. “A minha namorada”. “Ah, a sua namorada...” E fui falando, fui falando, fui falando... Quando eu vi, virou uma capa. Eu não falei pra fazer proselitismo, pra levantar bandeira. E eu também pensei, chega de mentira! Parou! Vou te falar a  a verdade: no meio da gente – eu posso até falar isso aqui, a gente se conhece há um tempo -, a gente vai em festa, e eu chego ali com uma namorada, de mãos dadas, com uma pessoa que eu amo... Todo mundo sabe. Mas eu não vou chegar na imprensa e: “Ah não, porque... saí com namorado, escondido...”. Eu fico com homens também, adoro ficar com homens também. Tem o seu valor... mas...

Mas você já teve namorado mesmo?
Muitos, muitos. Mineira, né? Come quieto. É uma coisa muito mais do coração do que de gênero. Eu tive vários namorados, depois conheci alguns homens inteligentes, muito interessantes, muito incríveis, com uns quais eu tive um caso. Mas, até pelo fato de ter tido sempre namorada, eu tenho um certo pudor de ficar beijando na rua. A gente tem um certo cuidado, né? Eu tive uma que tinha filho, o que era uma coisa complicada. Então a gente não declarava muito, não ficava mostrando publicamente a nossa história... E, logicamente, quando eu comecei a ficar com homens, também não tinha muito essa coisa de ficar beijando na rua.

O que te tira do sério, Ana?
Carro. Motorista dirigindo na metade da velocidade na pista da esquerda. Pode andar a 80, e o cara tá a 40. Isso me deixa louca! Inveja. Inveja descarada. Já tive várias amizades que eu acreditei que fosse amizades verdadeiras e depois vi que era pura inveja. Isso também me deu um trauma bem grande. A inveja é uma coisa da qual eu quero distância. E falação! Gente que fala demais, gente que fala mais do que sabe. Especulações... Fofoca... Gente que inventa coisas, que diz uma coisa pra menosprezar o outro ali. Não gosto... Não sou muito de jogar conversa fora, nesse sentido, sabe?

O que a inspira? A sua vida ou a vida em geral?
A vida em geral. Ás vezes componho com a imaginação, ás vezes componho com o coração. Os personagens que crio também são meus. “Vê Se Me Esquece”, uma música do meu segundo disco, fiz pro término do relacionamento de duas amigas. Uma delas era minha ex – namorada, de quem eu fiquei muito amiga. Elas tinham terminado, eram muito minhas amigas, e cada uma me ligava de um lado... Uma ligava chorando de um lado, a outra ligava chorando do outro, e eu naquele meio tentando ser imparcial. E foram tantas ligações que eu acabei fazendo essa música. E as histórias, ver as pessoas na rua, ouvir o que elas têm a dizer, a maneira como as pessoas olham a vida... Isso tudo me dá muita inspiração. Quando a gente é mais nova, tudo vira música com facilidade. Eu tive uma época, quando eu lancei o Dois Quartos – um álbum duplo, com 24 músicas -, em que tudo virava música. Tudo era motivo pra virar uma canção, tudo! Eu acordava, olhava o sol: “Vou fazer uma canção”. Chovia: “Vou fazer uma canção”. Fui ao cinema: “Vou fazer uma canção”. E isso é transitório. Agora estou num momento em que estou compondo também, mas querendo fazer poucas canções.

E isso tem uma rotina? Você compõe de manhã, compõe de tarde? Anota frases pra pensar sobre elas depois?
Sim. Agora, com esse mundo digital, com computador pra cima e pra baixo, a gente tem programa de música. Eu ando com eles na estrada, onde eu vou. No computador tem um teclado que eu toco piano. E aquilo pode virar, dentro do computador, guitarra, baixo, bateria. Dá pra tocar bateria nesse teclado! Então eu fico pra cima e pra baixo compondo no computador, experimentando coisas que eu não consigo naquele desenho antigo e maravilhoso que é do violão – e eu não deixo de sentar e tocar violão e fazer uma canção no violão -, ele se modifica e vira uma espécie de experimento. Estou sempre com o fone, compondo alguma coisa, tentando criar alguma coisa. De letra, também, é a mesma coisa. Vem a idéia de uma frase, e eu guardo ali, deixo numa pasta. Eu tenho uma pasta no meu computador que se chama “Fragmentos de Frases”. De vez em quando eu recorro a ela. Quando estou precisando de uma grande frase e eu não consigo terminar, eu volto ali e pego uma frase. Começar a tocar piano foi muito importante pro esquema da composição. Foi uma coisa que enriqueceu bastante, porque com o violão você acaba fazendo sempre o mesmo desenho. No piano você toca de uma outra maneira, você enxerga as notas de outras maneiras. Então, você tem como buscar outros caminhos.

Você mesmo se desafia.
É, porque senão eu começo a fazer sempre da mesma maneira, não busco outra forma de fazer. É bom buscar novas maneiras. Com o piano foi assim. Tive quatro meses de aula com a Délia Fischer antes da estréia do Dois Quartos, porque eu queria tocar o “É Isso Aí” no piano. Ela é uma professora tão incrível que eu aprendi. Aprendi, razoavelmente, algumas coisas harmônicas. Já deu pra compor umas coisas. Aí eu fiz “Traição”, junto com a Chiara Civello, pro meu disco N9ve, no piano. Já fiz mais duas músicas também no piano. Tá bem gostoso, bem bacana esse outro modo de ver a música. Isso me dá um certo frescor.

E você construiu uma espécie de palco na sua casa.
Quando rola um sarau as pessoas vêm, aí tocam percussão, piano, tem baixo, guitarra... O John Legend esteve aqui e adorou! Tocou piano. Ele colocou no Myspace dele. A banda dele toca cantou, os backings, o baixista, o guitarrista... Fizeram um puta show aqui. Incrível! Incrível!

Você já o conhecia?
Não. Eu completei 10 anos de carreira, a Marilene [Gondin, empresária de Ana Carolina] me disse: “E aí? E agora José? Dez anos de carreira. O que você tem pra me dizer?”. Eu falei que queria comemorar do meu jeito. Não queria fazer um show ao vivo, pro público, e gravar. Eu queria me divertir, chamar as pessoas pra cantar comigo... “Eu quero cantar com o John Legend”. Ela olhou pra mim e disse: “Você só quer isso?”. Eu falei: “Por que não? Por que não? Vamos tentar. O “não” já é. O “não” já tá dado”. Ele ‘não’ me conhece. O ‘não’ existe”. Aí mandamos uns e – mails na primeira pessoa: “Eu sou Ana Carolina, uma cantora brasileira...”. E mandei uns links do YouTube, de áudio, de músicas. “Estou fazendo 10 anos de carreira, adoro o seu trabalho e queriamuito cantar com você. Estou te mandando uma música”. Mandei uma música sem letra, só a melodia. Escrevi: “Eu estou fazendo a letra dessa música, que é minha e do Antônio Villeroy. Se você quiser botar uma letra em inglês e cantar comigo ou tocar um piano ou qualquer coisa...” Me dei muito bem! Ele gostou da música, cantou e ainda fez a versão em inglês. Muito legal! Foi muito legal! Então, ficamos amigos, ele veio ao Brasil, a gente se divertiu. É um cara incrível! Gente como a gente. Eu amo gente. Eu dei muita sorte! Senti o coração dele quando assisti um vídeo no YouTube, numa apresentação... “Poxa, esse cara é uma boa pessoa”. É capricorniano também. Que presente maior eu poderia receber? Dez anos de carreira, cantei com o John, cantei com a Esperanza Spalding, uma mulher que eu admiro já há muito tempo, muito novinha, que toca um baixo inacreditável, uma pessoa superincensada nos Estados Unidos no jazz. A Chiara Civello, minha parceirona, cantou no disco Aí eu tirei uma onda danada! Fiz uma música com o Gilberto Gil. Depois que a música já tava pronta, eu chega num lugar e a primeira coisa que eu fazia era contar pras pessoas:”Tudo bo, Leda? Eu fiz uma com o Gil”[risos]. Com uma felicidade, um orgulho, uma honra de ter feito com o mestre. E cantei com ele também no DVD. Foi uma coisa maravilhosa! Cantei com a minha diva maior, Maria Bethânia. Cantei com a Ângela Rô Rô, “Homens e Mulheres”, fazendo uma brincadeira com essa coisa que a imprensa fica especulando. Ana Carolina e Ângela Rô Rô gostam de homens e gostam de mulheres. Aí chamei logo ela pra gravar “Homens e Mulheres”. Ficou superdebochado, super legal. Gravei com a queridíssima Roberta Sá, que é uma grande cantora; adoro! Gravei com a Maria Gadú, “Mais que a Mim”, o único blues que ficou de fora desse disco. Cantei com o Luiz Melodia, “Cabide”. Cantei com o Seu Jorge, “Tá Rindo, É?”. Cantei com a Zizi Possi. Uma felicidade! Uma felicidade!

Ana você está morando numa casa cercada de verde. Está gostando de morar no meio do mato, no alto de uma montanha?
É muito bom. A vida em apartamento era uma vida de janela fechada, de não escutar a chuva bater no chão, de trânsito. Eu abria a janela e via carro passando, buzina, etc. Aqui é silêncio absoluto. Vinte e quatro horas de silêncio. Eu fecho ali e fico em silêncio. Não escuto mais nada no mundo. Até porque ouço muita música nos ensaios; tem horas que eu preciso pra caramba desse silêncio. É muito bom! Eu gravei o meu primeiro disco aqui, nesta rua, no estúdio do Liminha, e vim morar nessa rua. Destino... Eu não gosto muito é de praia, de mar. Não vou pro mar, pra praia. Eu não tenho relação com o mar. Me mostra um lugar verde, onde tem montanha... Engraçado, eu logo vim pra cá. Esse verde, essas árvores... Uma loucura! Maravilha! Mas sair pra ir a bares, restaurantes, não vou muito não. Já fui muito, mas a gente muda, né? Se estiver vazio, se for dia de semana... é um barato! Gosto de comer bem.

E você leva bem esse negócio de ser diabética? Você toma conta de você? Você é cuidadosa?
Sou, sou. Eu sou mais do que você imagina. Se você vir os meus dedos, você não acredita! São todos furados. Eu furo seis vezes ao dia. Eu sou chata. Fico o tempo inteiro regulando. Tomo a minha insulinazinha, faço a minha dieta. Nos exercícios é que sou meio falha. Agora não tô muito boa, não tô fazendo muito  exercício. Mas, na medida do possível, eu levo uma vida muito boa. Eu faço tudo o que tenho que fazer. Eu sou viciada em computador. Na verdade, eu não ligo o computador, o computador fica no repouso. Eu não desliguei o meu computador desde que eu comprei! É um negócio inacreditável!. Eu acho que beira o vício. Eu não participo de Orkut, não tenho twitter, não tenho facebook, não tenho nada disso. Eu tenho meu site. As pessoas enviam perguntas pra lá, eu respondo. Algumas perguntas, lógico. Mas normalmente eu passeio muito pela internet. Em sites de música, de notícias. E, como é um mundo à parte... Não é um mundo á parte, a internet é um mundo mesmo. Eu dou uma volta no Louvre, pra lembrar umas coisas que eu vi. Sério! Vou a Irlanda, vou dar uma volta nos museus de lá. Vou ver o que acontece na noite da Índia, por mais que eu não entenda aquelas letras, a língua do lugar. Eu vejo fotos, eu vejo os costumes, eu vejo o lugar, eu vejo as paisagens. Eu adoro fazer esse tipo de coisa. E adoro ranking, adoro lista. Os dez maiores cientistas do mundo, por exemplo. Aí, eu entro no Google e vejo os maiores do mundo. Os dez piores acidentes. Qual a companhia aérea que menos caiu. Adoro esse tipo de coisa! Adoro essa listas. Adoro! Tenho uma queda por isso. Pegar um e – mail é bom também. É maravilhoso. Mas, se você entrar na internet e consegue navegar, descobrir coisas e aprender com ela, isso aí é o grande presente. Fora as coisas engraçadas. Eu adoro rir, adoro rir! Adoro dar risadas.

Você joga baralho Ana?
Jogo muito. E jogo na internet também. Não é por dinheiro não. Tem pôquer também, mas sou viciada em tranca. Jogo on – line também. Eu entro numa sala, e jogamos eu e o meu parceiro contra mais dois. Só que o parceiro mora em Natal, entendeu? Uma é de São Paulo, e o outro é de Goiânia. Depois gira um papo... É engraçado, é bom.

E você fala que você é você?
Não. Nunca. Eu nunca falei. Nem coloco o meu nome. Mas fico ali... Ás vezes antes do show eu jogo. Ás vezes, a minha concentração pro show é essa [risos]. Adoro ver filmes também antes do show. Vejo filmes e filmes. Vejo dois, três filmes.

Em dia de show.
Em dia de show.

Você chega cedo no lugar do show?
Por exemplo, eu vou pra Salvador e vou pegar o avião que sai 11h15 da manhã. Ás 11h – eu já estou com um filme aqui dentro [mostra o computador] – eu abro e começo a ver. Chego no hotel, acabo de ver, coloco outro. Até a passagem de som. Acaba a passagem de som, ás vezes eu fico direto no local do show. Eu vou pro camarim e continuo vendo o filme, me maquiando, fazendo exercício de voz, trocando de roupa, até a hora de entrar... Juro! Ver um filme me alimenta e me relaxa também.

Nunca atrasou um show pra ver o final do filme?
Nunca atrasei. Nunca atrasei, não [risos].

LEDA NAGLE – DE  MINAS PARA O MUNDO
                                             
Levando Minas no Gesto e no coração
Leda Nagle entrevista várias celebridades Mineiras entre elas, Ana Carolina, que fala curiosidades e fatos sobre a sua vida e carreira.
Á venda nas melhores livrarias da sua cidade

FONTE: De Minas para o Mundo / Leda Nagle.

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