sexta-feira, 17 de setembro de 2010

ANA CARREGA NAS TINTAS DO BOM ENSAIO DE CORES

                                            
                                         

     
Ana Carolina faz o show Ensaio de Cores em tons oscilantes. A suposição de um som mais camerístico - gerada pela presença em cena de enxuto trio de piano (Délia Fischer), violoncelo (Gretel Paganini) e percussão (LanLan) - é de cara descontruída pelo peso instrumental que molda o registro desbotado de Rai das Cores (Caetano Veloso), primeiro número de roteiro que alinha inéditas da lavra de Ana, releituras de músicas até então nunca cantadas pela artista e vários sucessos colhidos em seus oito álbuns. Musa inspiradora desse show que passa longe da calmaria de um recital, a paixão de Ana pela pintura - exercitada desde 2002 - é o mote de As Telas e as Elas, inédito samba lento (não muito distante dos tons pastéis da Bossa Nova) em que a compositora relaciona com elegância o tema das artes plásticas com o universo das paixões que moldam seu repertório autoral. A despeito de a interpretação intensa de Força Estranha (Caetano Veloso) ser seu grandioso e maior momento, Ensaio de Cores cresce quando ganha tons suaves. Como no número em que o trio rodeia Ana na beira do palco e forma breve quarteto de cordas enquanto a cantora desfia em clima quase seresteiro a gênese do Violão (Sueli Costa e Paulo César Pinheiro). Contudo, Ana Carolina nunca foi cantora de tons pastéis. Fiel ao seu padrão passional, a cantora exacerba ao listar as mulheres de Todas Elas Juntas num Só Ser (Lenine e Carlos Rennó), ao sublinhar o tom folhetinesco de algumas passagens de Alguém me Disse (Jair Amorim e Evaldo Gouveia) - bonito bolero imortalizado em 1960 na voz kitsch de Anísio Silva (1920 - 1989) e introduzido no Ensaio pelo violoncelo virtuoso de Paganini - e ao reviver outros sucessos de seu repertório ao longo do roteiro que contabiliza 19 números em cerca de 1h20m de show. E o fato é que o público da artista, igualmente passional, reage calorosamente quando a cantora carrega nas tintas de temas como Heroína e Vilã (Ana Carolina e Antonio Villeroy) e Garganta (Antonio Villeroy). Garganta, aliás, fecha o show com o mesmo peso instrumental da abertura. Entre um número e outro, Ana desafia a percussionista LanLan num dueto de pandeiro, dá outra chance a duas canções menos inspiradas de seu repertório autoral (Claridade e Só Fala em mim), imprime outra tonalidade a Azul (Djavan) - tingida com divisão inusitada no único momento em que a artista fica sozinha em cena com seu baixo elétrico - e apresenta um inédito samba sincopado composto com Edu Krieger, Pra Tomar Três, unido em apropriado link temático com outro samba de universo boêmio, Cabide (Ana Carolina). Na sequência, Força Estranha (Caetano Veloso) mostra que a voz tamanha de Ana se agiganta quando encara música de seu tamanho, Quem de Nós Nós Dois (hit de Gianluca Grignani vertido por Ana e Dudu Falcão) descamba em forte coro popular e Eu Comi a MadonaEnsaio de Cores (Ana, Villeroy, Alvin L. e Mano Melo) reitera que a (grande) cantora se apequena quando apela para o erotismo mais vulgar. Interessante em sua essência, não precisa de tintas fortes para entrar no tom.
 
 
FONTE: Blog Mauro Ferreira
            

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