sábado, 24 de julho de 2010

REPORTAGEM FANTÁSTICA E MARCANTE

Galera, decidi compartilhar com vocês uma reportagem fantástica e brilhante da diva Ana Carolina, em 2005, quando assumiu publicamente a sua bissexualidade á Revista VEJA. Sensacional!!!




"SOU BI... E DAÍ?

 

ESPECIAL: A cantora Ana Carolina: sexualidade sem rótúlos.



"Acho engraçado quando alguém chega a meu camarim e diz: 'Que coragem a sua de cantar 'Eu gosto de homens e de mulheres!' Poxa, 'coragem' é uma expressão muito antiquada nessa área".


Na semana passada, a cantora Ana Carolina deu uma entrevista á VEJA que contém uma confissão pessoal e ao mesmo tempo é o reflexo de uma mudança e tanto na forma como os jovens brasileiros encaram a sexualidade. Ana Carolina falou sem meias palavras sobre suas preferências. "Sou bissexual", disse ela. "Acho natural gostar de homens e mulheres". O que chama atenção é que ela trata do assunto com leveza. E, é importante frisar, sem ter a mínima intenção de fazer proselitismo em favor de causas políticas. "Sou contra essa postura de levantar bandeiras para defender o homossexualismo, pois fica parecendo que ser gay é uma doença", diz. Ana Carolina, hoje, é uma das artistas que mais vendem discos no Brasil. Desde 1999, ela lançou quatro CDs, que ultrapassaram a marca de 1,5 milhão de cópias vendidas. Somente neste ano foram 800. 000 unidades, mais da metade de toda a carreira. Seu mais recente lançamento, "Ana & Jorge" , feito em parceria com o cantor carioca Seu Jorge, atingiu a vendagem de 125. 000 discos em apenas duas semanas. Não é exagero dizer que 2005 foi seu ano de ouro - e a naturalidade com que expõe sua sexualidade só reforçou seu carisma.

Nascida em Juiz de Fora, Ana Carolina vem de uma família de músicos. Seu avô cantava em igreja e a avó era artista de rádio. "Dizem, aliás, que ela teve um affair com o forrozeiro Luiz Gonzaga - mas não me pergunte se foi antes ou depois de conhecer meu avô", conta. Ana Carolina é autodidata: aprendeu a tocar violão, guitarra e pandeiro sozinha. Hoje em dia, diz que domina a "matemática da música", embora ainda não saiba ler partituras. A cantora lembra que na adolescência, ao mesmo tempo em que dava os primeiros passos musicais, já demonstrava interesse por ambos os sexos. "Namorei quatro garotos, depois uma menina, em seguida outro garoto e mais tarde uma menina outra vez", diz. Aos 16 anos, ela tomou a decisão de contar para a mãe que se sentia diferente das amigas. "Fiz isso de supetão. Estávamos falando de um assunto qualquer, e eu soltei a confissão, como se não fosse nada. 'Mãe, eu gosto de homens e de mulheres. Dá para a senhora me passar aquele negócio ali, por favor?" A opção da filha foi respeitada, ainda que mais tarde ela tenha enfrentado cobranças. "Tive de ser mais dura com minha mãe, para reafirmar minha condição. Mas aí ela aceitou de vez, e hoje nos damos bem", conta.


                                                           
"Sempre apreciei as intérpretes que botam tudo para fora ao cantar, como se fosse o último dia de sua vida. Cantar alto me deixa excitada".


Ana Carolina começou da mesma forma que tantos artistas anônimos: cantava em barzinhos. Seu repertório tinha canções de Edu Lobo e Chico Buarque, além de músicas próprias. "O barzinho é uma escola maravilhosa, desde que você não cante apenas sucessos que tocam na rádio, imitando as versões originais. Desse jeito, você nunca encontra a própria personalidade". Ana Carolina ainda era desconhecida quando encontrou uma figura que marcaria a sua carreira: a cantora Cássia Eller. "Quando Cássia foi a um show meu, eu me senti como se tivesse ganho a Cruz de Malta", diz. As duas ficaram amigas e, depois da morte de Cássia, Ana Carolina herdou parte de seus fãs.


                                                             

 
Ana Carolina descobriu que era bissexual na adolescência. Quando tinha 16 anos, ela decidiu contar á mãe. "Gosto de homens e de mulheres. Dá para pegar aquele negócio ali, por favor?". A cantora, no entanto, não descarta a idéia de um dia se apaixonar por um homem. "Se isso acontecer, caso de véu e grinalda, e ninguém irá me impedir".


O forte da cantora são as baladas - mas ela faz bom uso de seu vozeirão para lhes dar um toque mais dramático do que intimista. "Cantar alto me deixa excitada", diz ela. Além de compor, Ana Carolina tem gravado canções de medalhões e novos nomes da MPB. Ela tem uma visão realista do gênero em que atua. "Não acredito que surgirão na música brasileira movimentos musicais tão inovadores quanto a bossa nova e o tropicalismo. Mas isso não é o fim do mundo. Vamos fazer música de qualidade, nem que seja uma revolução", diz. Os shows de Ana Carolina têm público eclético. Há fãs lésbicas que bradam palavras de ordem enquanto ela entoa baladas românticas, e também casais heterossexuais. Quando a cantora apresenta sua versão bossa nova de "Eu Gosto é de Mulher", sucesso do grupo de rock paulistano Ultraje a Rigor da década de 80, a plateia sempre se entusiasma. "É uma canção machista, misógina até, mas sempre divertida". Outro ponto alto se dá quando ela interpreta uma música que estará em seu próximo disco, "Eu Gosto de Homens e de Mulheres". "De vez em quando alguém chega a meu camarim e diz: 'Que coragem cantar essa música!'. Sempre recebo bem esse tipo de elogio, mas acho que aí está a diferença da minha visão. Acho 'coragem' uma expressão muito antiquada nessa área. Nossas inclinações sexuais não deveriam causar medo".

Atitudes como a de Ana Carolina atraem dois tipos de oposição. Sua maneira de falar de sexo parece ultrajante para os conservadores, mas também incomoda muitos homossexuais aguerridos, que gostariam de vê - la empunhando a bandeira do arco - íris. Ana Carolina pertence a uma era pós- engajamento. Parte da militância não se conforma com suas negativas a se apresentar na Parada Gay paulistana ou em casas noturnas voltadas a esse público. "Acho que passeatas e discursos no estilo 'nós', os homossexuais, só alimentam uma visão estereotipada", diz. Inspirada por autoras como a americana Camille Paglia, que admira por suas polêmicas no âmbito do feminismo e da cultura gay ("O que mais me incomodou num assalto por que passei foi levarem por acaso, um livro dela", brinca), a cantora não quer ser aprisionada num nicho. "Posso até estar saindo com uma mulher, mas se eu me apaixonar por um homem e decidir casar com ele na igreja, de véu e grinalda, ninguém vai me impedir", diz.


                                                              
A comediante Ellen DeGeneres: sem problema em admitir que é gay.

As atitudes de aceitação ou rejeição social da homossexualidade variaram ao longo da história. Na Grécia e na Roma antigas, era um comportamento socialmente aceitável, especialmente quando envolvia um homem mais velho e um adolescente. A religião judaico-cristã, porém, ergueu pesadas interdições. São Paulo, na epístola aos Romanos, diz que os homens que "se queimam de paixão" uns pelos outros praticam "relações contra a natureza" e são, portanto, vergonhosos. A hipocrisia sempre deu um jeito de contornar as proibições. E o privilégio econômico também se traduzia em vantagens no terreno sexual: o poeta inglês Lord Byron, um ícone do romantismo gótico que gostava tanto de homens quanto de mulheres, observou que todas as perversões que eram condenadas nas classes médias eram perdoadas aos que, como ele, pertenciam à aristocracia. Mesmo assim, esperava-se que os ricos fossem discretos na prática de seus comportamentos "desviantes". O escritor e dândi irlandês Oscar Wilde foi julgado como homossexual porque seu caso com lorde Alfred Douglas se tornara tão conspícuo quanto o extravagante casaco verde-garrafa que ele adorava vestir. Condenado a dois anos de prisão e trabalhos forçados, Wilde se tornou um ícone da causa gay. A punição da homossexualidade como crime ainda vigoraria no século XX, especialmente em contextos autoritários como a Alemanha nazista e a União Soviética. A tendência, porém, foi o comportamento ser tirado do âmbito judicial para ser lançado no terreno médico – ou seja, a homossexualidade passou a ser vista como doença. Foi só nos anos 70, por exemplo, que o DSM – uma espécie de "listão" de distúrbios psíquicos, utilizado por psiquiatras no mundo todo – excluiu a homossexualidade de seu catálogo de distúrbios psicológicos. 


                                                           
            HOMOSSEXUALISMO NA ARTE
O deus Júpiter se disfarça em mulher para seduzir a ninfa Calisto (foto), no quadro do pintor flamengo Rubens (1577-1640); o poeta Lord Byron fazia apologia da bissexualidade e dizia que o que era aceitável para a aristocracia nem sempre valia para as classes mais baixas; as esculturas romanas exaltavam a beleza do corpo masculino
.


A última década viu as mudanças culturais em relação à sexualidade se acelerarem de maneira marcante. Isso é perceptível na televisão – a maior caixa de ressonância do pensamento e dos hábitos contemporâneos. A comediante americana Ellen DeGeneres assumiu sua homossexualidade em público em 1997, no auge do sucesso de uma série que estrelava, e, desde então, a TV americana vê crescer a cada ano o número de produções que abordam o universo gay. Há séries leves como Will & Grace e apimentadas como The L Word, sobre um grupo de lésbicas glamourosas de Los Angeles. No Brasil também há mais liberdade. Novelas como Mulheres Apaixonadas e Senhora do Destino trataram recentemente do lesbianismo sem causar rejeição. Nessa última, Aguinaldo Silva levou a trama até onde nenhum noveleiro havia ousado: o par formado pelas atrizes Mylla Christie e Bárbara Borges chegou a dividir a mesma cama e a adotar uma criança.
Retratar a homossexualidade, contudo, é diferente de assumi-la – mais ainda da maneira como Ana Carolina faz. O preconceito ainda é uma realidade, e as dificuldades para "sair do armário" continuam passando pelos mesmos pontos sensíveis: o medo do impacto junto à família e no trabalho. "Profissionais de qualquer tipo, mas principalmente os que lidam com o grande público, tendem a adiar a decisão de assumir para não se prejudicarem", diz Sônia Alves, diretora do instituto DataGLS, que pesquisa o público gay. "Ainda não é fácil se assumir. Se fosse realmente fácil, teríamos um monte de atrizes e cantoras se revelando homossexuais", diz o escritor e militante João Silvério Trevisan.
Para o psicólogo Ritch Savin-Williams, professor da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, já está em andamento a revolução que falta – aquela que vai substituir o escândalo em torno das diferenças sexuais por uma saudável naturalidade ou até mesmo pela indiferença. Savin-Williams, que pesquisa há mais de vinte anos as implicações sociais do comportamento gay, acaba de publicar o livro The New Gay Teenager (O Novo Adolescente Gay), no qual defende a tese de que os jovens contemporâneos estão "dando um fim à era da identidade sexual". Em suas palavras, uma parcela considerável dos adolescentes de hoje em dia "não se sente embaraçada pela ambigüidade sexual, não a considera desviante e a percebe por todos os lados". Segundo o pesquisador, o uso de categorias sexuais para separar, isolar ou discriminar estaria diminuindo de maneira acelerada. "Para muitos jovens, ser rotulado como gay já não importa muito. Os adolescentes cada vez mais redefinem, reinterpretam e renegociam sua sexualidade de tal forma que possuir uma identidade gay, lésbica ou bissexual praticamente não tem significado", disse ele a VEJA.


Pesquisas recentes têm revelado mudanças importantes na maneira como os jovens vivenciam a própria sexualidade. Um levantamento recém-concluído com 10.260 homossexuais brasileiros mostra que hoje eles se assumem mais e mais cedo. Realizado por meio da internet pelo DataGLS, o censo mostra que 73% dos gays entrevistados se assumiram antes dos 24 anos. Ritch Savin-Williams apresenta dados ainda mais espantosos sobre os Estados Unidos. Ele revisou mais de uma dezena de estudos que demonstram que a idade média em que as pessoas se dão conta de desejos homossexuais (ou os assumem para si mesmas) caiu nas últimas décadas. Ela era de 14 anos para meninos e 17 anos para meninas, na década de 60. Nos anos 90, passou a ser de apenas 10 anos para garotos e 12 para garotas.
Neste ano, a MTV brasileira patrocinou uma pesquisa sobre o universo jovem que também traz informações curiosas. Dos 2.359 moradores de sete capitais brasileiras com idade entre 15 e 30 anos ouvidos durante a enquete, 40% disseram se incomodar com a visão de dois homens se beijando. Caso sejam duas mulheres, o índice é de 31%. São números consideráveis, mas não expressam uma maioria. A abertura para experimentações tornou-se um traço marcante do comportamento jovem – e aí se incluem tanto a experimentação heterossexual, como no hábito de ficar com diversas pessoas durante uma balada, quanto a homossexual. Uma das teses levantadas pela pesquisa da MTV é a de que existe um aumento da tolerância, mesmo que não da aceitação, relativamente aos gays. Outros entrevistados chegaram a cogitar até mesmo da existência de uma "moda" em torno do comportamento gay ou, ao menos, ambíguo. "Antigamente você podia até ter vontade, mas não chegava a fazer. O que acontece agora é que há muita abertura para experiências", disse uma jovem de classe média de Salvador. Transformações marcantes seriam visíveis entre as meninas. Garotas de 13 a 17 anos, por exemplo, têm "testado" com freqüência o beijo entre amigas. Como observam os psicólogos – inclusive para tranqüilizar pais preocupados –, essa atitude não significa que as meninas sejam ou venham a ser necessariamente lésbicas. Beijar uma amiga é mais um indício de liberdade, de ausência de preconceitos e do desejo de não se deixar capturar por nenhum rótulo.
"As mudanças em direção a uma maior aceitação da diversidade estão em andamento. Não há volta para isso", diz Savin-Williams. Segundo ele, as atitudes negativas em relação à homossexualidade ainda terão eco por bastante tempo, mas são contrabalançadas pela percepção de que é cada vez mais custoso e fútil manter de pé velhas barreiras. Ana Carolina é ícone de uma geração que está deixando para trás o peso de um preconceito ancestral. Obviamente, constatar isso, e compreender essa nova visão naturalizada da sexualidade, não equivale a incentivar nem muito menos a convidar todos a uma vida gay. Como diria o intelectual brasileiro Roberto Campos, parodiando os lordes ingleses: "Agora que tornamos a homossexualidade aceitável, não precisamos dar o último passo e torná-la obrigatória".


FONTE: Revista VEJA - Ed 1936 - 21 de dezembro de 2005
                                            


                                                 

Nenhum comentário:

Postar um comentário